PROGRAMA DE GAROTO: VIDA E SEXUALIDADE Descargar este archivo (02 Programa Garoto- FCarvalho VTeixeira ASilva IPaixao.pdf)

Flavio Roberto de Carvalho Santos
Vinicius Teixeira de Almeida
Arthur da Silva de Oliveira
Igor Alexandre Paixão Ferreira

Universidade Veiga de Almeida, Rio de Janeiro/Brasil

Resumo

O projeto em andamento é um do estudo sobre a sexualidade humana a parir do trabalho “Angústia e sexualidade” apresentado na Semana de Psicologia/2014 na Universidade Veiga de Almeida/Brasil. Os questionamentos destacam que o humano não é apenas um ser físico e psíquico de cunho sexual, mas sim um ser sexual especificamente. Na história e ainda na atualidade se observa certa complexidade em abordar o tema, o que chama a atenção para esta pesquisa de campo sobre “Programa de garoto: vida e sexualidade”. O objetivo é conhecer a realidade de vida dos garotos de programa que atuam na cidade do Rio de Janeiro, em relação à sua história de vida, sexualidade, afetividade e prevenção. A justificativa para o tema se pauta na realidade de que na cidade do Rio de Janeiro/Brasil há um grande número de anúncios com esta finalidade, onde em um único site é oferecido 1.898 perfis de anúncio de rapazes. O método inclui levantamento teórico, questionário e entrevista acerca da vida dos garotos. Em caso de necessidade e concordância, será indicado o Serviço de Psicologia Aplicada da UVA e o Ambulatório de Sexologia do Instituto de Ginecologia da UFRJ. Os resultados serão apresentados como estudo do perfil e dados estatísticos.

Palavras-chave: garotos de programa; sexualidade; afetividade

 

Resumen

El proyecto en curso es un estudio de la sexualidad humana a partir de la obra "La angustia y la sexualidad", presentado en la Semana de Psicología / 2014 en la Universidad Veiga de Almeida / Brasil. Las preguntas señalan que el ser humano no solo es un ser físico y mental de naturaleza sexual, sino un ser sexual específico. En la historia y aún hoy se ve cierta complejidad para abordar la cuestión, lo que llama la atención sobre este campo de la investigación sobre “Programa del niño: la vida y la sexualidad”. El objetivo es conocer la realidad de la vida estafadores que trabajan en la ciudad de Rio de Janeiro, en relación con su historia de vida, la sexualidad, la afectividad y la prevención. La justificación para el sujeto es guiado en el hecho de que en la ciudad de Rio de Janeiro / Brazil hay un gran número de anuncios para este fin, donde en un solo sitio se ofrece 1, 898 de anuncios de perfiles de chicos. El método incluye encuesta teórica, cuestionario y entrevista sobre la vida de los niños. En caso de necesidad y el acuerdo, el Servicio de Psicología Aplicada de la UVA y Sexología Clínica del Instituto de Ginecología, se mostrará la UFRJ. Los resultados se presentan como un estudio del perfil y estadísticas.

Palabras clave: chaperos; la sexualidad; afecto

 

Abstract

The ongoing project is a study of human sexuality to calve work “Anguish and sexuality” presented at the Week of Psychology / 2014 at the University Veiga de Almeida / Brazil. The questions point out that the human is not only a physical and mental being of a sexual nature, but a sexual being specifically. In history and still today is seen certain complexity in addressing the issue, which draws attention to this field of research on “boy Program: life and sexuality”. The goal is to know the reality of life hustlers who work in the city of Rio de Janeiro, in relation to his life story, sexuality, affectivity and prevention. The justification for the subject is guided in fact that in the city of Rio de Janeiro / Brazil there are a large number of ads for this purpose, where in a single site is offered 1,898 boys ad profiles. The method includes theoretical survey, questionnaire and interview about the life of the boys. In case of need and agreement, the Applied Psychology Service of UVA and Sexology Clinic of the Institute of Gynecology, UFRJ will be displayed. The results will be presented as a study of the profile and statistics.

Keywords: hustlers, sexuality; affection

Introdução

A sexualidade humana é complexa, opostamente à questão do sexo. Tal complexidade pode ser entendida em sua realidade afetiva que proporciona o prazer que difere do sexo apenas como coito. Contudo, frente à repressão sobre a sexualidade, o sexo parece se tornar mais ‘interessante’ que a própria sexualidade. Neste sentido, o sexo mobiliza a vida financeira, o mercado e recursos que prometem uma vida sexual satisfatória. Do ponto de vista clínico, o sexo não indica status de saúde, mas a vivência da sexualidade no ato sexual sim.   Com esta visão clinica, a proposta deste projeto se destaca como uma continuação do estudo sobre sexualidade humana que surgiu da apresentação do trabalho “Angústia e sexualidade” apresentado na semana de Psicologia/2014 na Universidade Veiga de Almeida/Brasil. O ponto importante dos questionamentos destaca que o humano, parafraseando Araújo (1997), não é apenas um ser físico e psíquico de cunho sexual, mas este ser humano é um ser sexual especificamente. Ao longo da história e ainda na atualidade se observa certa complexidade sobre o tema sexualidade que chama a atenção para estudos e pesquisas de campo, onde este se direciona para a temática “Programa de garoto: vida e sexualidade”.

Historicamente, na Grécia antiga havia distinção entre prazer e amor, onde as prostitutas eram para o prazer, as esposas para cuidar da casa e educação de filhos, relata a autora (Op. Cit.). O fenômeno da prostituição é constituído de um campo amplo e complexo, objeto de estudos, opiniões, interesses, preconceitos e nomenclaturas. É uma temática debatida, que suscita opiniões no senso comum e teorias na academia. Por ser tão abrangente, é possível entender a razão de ser esta temática vista por discursos variados e abordados de formas distintas. Dentre as diferentes formas de lidar com a prostituição, esta ainda é entendida e tratada pela sociedade com menosprezo, necessidade onde se destacam cunhos pejorativos e nomes “enfeitados”, valores e desvalores na história, com pompa e reconhecimento até à sargeta; prostituta a profissional do sexo ou garoto de programa. 

Sobre o tema sexualidade, destaca-se a diferença entre os termos sexo e sexualidade. Segundo Jurberg e Jurberg (1977) a palavra sexualidade tem origem no termo sexus. Esta deriva de secare, com significado em latim de cortar, separar e distinguir; onde sexo se refere ao gênero macho e fêmea. Diferentemente, sexualidade significa o conjunto de fenômenos orgânicos e psíquicos ligado ao exercício das funções sexuais. Uma dificuldade parece insurgir sobre sexualidade e amor, onde se fala em “fazer amor” como se um significasse o outro. Há pessoas que tem práticas sexuais sem o vínculo afetivo e a vivência do amor. Para Calegari (2004) a sexualidade é um forte estímulo vital, onde a sexualidade e o amor são coisas distintas que podem caminhar juntas e, para outras pessoas, pode ser contraditórias. O instinto sexual atrai para a intimidade física, mas não cria vínculos necessariamente. O amor cria/possibilita o vínculo duradouro para a intimidade, mas para isso é preciso que o amor não esteja em uma base infantil, compensatória.

Com relação à angústia, esta é um fator importante a ser analisado e estudado, principalmente pelo seu valor psíquico. Destaca-se que angústia é um aspecto em que há uma ameaça à integridade ao Ego e, este por sua vez, se desdobra para dar conta de tal sensação desconfortável e dilacerante. Novaes (2015) observa com propriedade que a angústia que o ato sexual pode suscitar se refere ao quanto de entrega emocional-sexual cada sujeito se permite, pois, se entregar ao gozo sexual é se entregar a algo que escapa (perda da consciência), a algo que não é apreensível por meio das palavras, é pura sensação intensa. Isto é, está aquém de toda palavra - a experiência erótica é um mergulho no espaço arcaico da subjetividade, espaço este anterior à linguagem, são puras sensações. Resultante disso é a ameaça sentida pelos amantes da perda dos limites da própria individualidade pelo escambo afetivo com o outro.

Angústia, do latim angùstia, significa estreiteza, aperto, limite, restrição ou aflição intensa sentida no próprio corpo, principalmente na região toráxica. Em psicopatologia, Paim (1975), ao abordar as “Alterações da afetividade” comenta que Blaser e Poeldinger ao estudarem a evolução do conceito de angústia, admitem que se deve a Kierkegaard a primeira distinção entre temor referido a um objeto e, a angústia livre e flutuante, desprovida de objeto. Distinção adotada por Jaspers (O pai da psicopatologia) que pontuou que é um sentimento constante e tortura o ser, que é diferente do medo por estar vinculado a algum fato. Já a angústia não tem objeto. Angústia – forma primitiva, corresponde a estratos psíquicos mais profundos que com frequência são menos claramente conscientes, e conservam  conexões psíquicas mais difusas e menos articuladas. O objeto é vago e indiferenciado. Os estados de angústia tendem a perturbar as funções fisiológicas e se expressam por meio de uma série de distúrbios neurovegetativos. Para Paim (1975), a angústia é o elemento central da Psicopatologia.

Tal tema na colocação de Reich (2003, p. 53):

... é correto rastrear a angústia humana na patologia da estrutura humana e que esta, por sua vez, reside no seu encouraçamento, e assumo responsabilidade de o encouraçamento pela impotencia orgástica do animal humano, porém tudo isso pode ser um mero mecanismo.

E ainda:

A função de prazer conduz descarga do excesso de energia vital. Em outra situação, destaca ainda que ...  A angústia está na base de cada reação de raiva. (p. 57).

Na visão de Dalgalarrondo (2000), o termo angustia se relaciona e se caracteriza diretamente pelo aperto no peito e na garganta, de compressão ou sufocamento. Assemelha-se muito a ansiedade, mas tem uma conotação corporal e mais relacionada ao passado. Do ponto de vista existencial, a angústia tem um significado mais marcante, é algo que define a condição humana, é um tipo de vivência mais "pesada", mais fundamental do que a experiência da ansiedade.

Em outro ponto de vista sobre a angústia, o afeto é caracterizado e é definido como algo que chega à consciência e provoca uma sensação, sendo, portanto, algo que se sente. Para Freud (1915b/1976 apud Pisetta, 2008) a rigor, não se pode falar em afetos inconscientes em virtude de sua essência perceptiva. Considerar a angústia sobre tudo um afeto demonstra que não se pode considerá-la apenas algo provindo do recalque, portanto simbólica; mas algo que, acima de tudo, afeta. Essa contradição na definição (ser um afeto e, ao mesmo tempo, ser derivada do recalque) instrumentalizará a segunda teoria da angústia e a noção de sinal. Freud (Op. Cit. apud Pisetta, 2008) ressalta que ela, além do caráter claro de desprazer, é sempre acompanhada de sensações físicas - como distúrbios respiratórios e cardíacos, indicadores de seu caráter motor. Por este último, ganha importância a apreciação do caráter econômico (energético) na teorização da angústia, já que há uma intrínseca relação entre a descarga afetiva (que caracteriza a angústia) e a inervação motora. Dessa forma, na angústia há sempre a consideração da quantidade de energia no psiquismo. Este mecanismo sugere a economia dinâmica de energia que expressa a reação seja a angústia neurótica, que difere da angústia psicótica e que difere da angústia dos estados limítrofes (Bergeret, 2007).

É necessário assinalar a relação freudiana entre a angústia e seu objeto causador. Com a suposição de que é o eu ameaçado (EGO) a sede e o produtor da angústia, a questão do objeto toma mais forma. Se o EGO que produz angústia, embora seguindo um modelo já marcado no inconsciente, ele a produz diante de que objeto? Há uma anterioridade das marcas deixadas pela angústia em relação ao sinal no eu. Com isso, que o objeto da angústia é, de certo modo, tanto atual (percebido pelo eu em sua atualização) quanto antigo (que deixou marcas psíquicas de desestruturação do escudo protetor e promoveu a clivagem inaugural da subjetividade). Há aí um encontro tanto anterior quanto posterior. Em contrapartida, toda a noção do objeto na teoria freudiana se alicerça nos efeitos simbolizantes do recalcamento, com a produção dos substitutos. Nesse sentido, se há um objeto para a angústia, ele não pode ser considerado a partir dos efeitos do recalque. O objeto freudiano é entendido como decorrência do recalque, recalque esse que é entendido como uma defesa contra o traumático que deixa as marcas da angústia como herança. Um objeto é composto, a partir do recalque, de uma nomeação, de uma apropriação pela linguagem. Tal conformação torna este objeto passível de vários sentidos, e cada sentido circunscreve um campo semântico possível. Considerar o objeto algo posterior, algo possível apenas a partir do recalque com a instauração do psiquismo, encontra eco na pressuposição final do texto “Inibições, Sintomas e Ansiedade” que destaca: “A angústia tem inegável relação com a expectativa: é angústia por algo. Tem uma qualidade de indefinição e falta de objeto.” (Freud, 1926/1976, p. 189, apud Pisetta, 2008).

A questão problema destaca indagar se garotos de programa apresentam uma vida marcada com angustia ou prazer, se a vivencia de sua sexualidade está pautada em condições saudáveis, afetivas e preventivas e se necessitam de orientação. Neste sentido, com base nos teóricos apontados, a hipótese negativa levantada é que os garotos de programa vivem dificuldades afetivas e de sexualidade e não fazem prevenção em seus encontros e, a hipótese nula levantada é que os garotos de programa não vivem dificuldades afetivas e de sexualidade e fazem prevenção em seus encontros.

A justificativa para o tema se pauta na realidade de que na cidade do Rio de Janeiro/Brasil há um grande número de anúncios com esta finalidade, onde em um único site é oferecido 1.898 perfis de anúncio de rapazes.

O objetivo é conhecer a realidade de vida dos garotos de programa que atuam na cidade do Rio de Janeiro e arredores, em relação às suas histórias, sexualidade, vida afetiva e prevenção; traçar o perfil dos chamados garotos de programa do Rio de Janeiro e conhecer os aspectos psicológicos dos mesmos quanto à vivência da sexualidade e angústia. Em casos particulares, indicação/orientação para acompanhamento específico no Serviço de Psicologia Aplicada - UVA para psicoterapia e/ou para o Ambulatório de Sexologia do Instituto de Ginecologia da UFRJ no Hospital Moncorvo Filho para terapia sexual, segundo seu desejo.

O método destacou levantamento da literatura sobre o tema, ida a campo, contato e entrevistas. Valorizou-se os aspectos éticos pautado nas normas da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) do Ministério da Saúde/Brasil, Resolução 196/96 e na orientação para pesquisa do Código de Ética Profissional dos Psicólogos/Brasil. A amostra conta com garotos de programa da cidade do Rio de Janeiro, que concordarem em participar do estudo, independente de escolaridade, raça, credo, idade, desde que maiores de idade e que assinem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foi utilizado um questionário individual e realizado em locais marcados ou nos locais de melhor adequação para a realização da mesma.

Considerações gerais

Originalmente, prostituição tem origem no latim “prostituere” e significa “colocar a diante”, “à frente”, “expor aos olhos”, e sempre esteve presente na história das civilizações. Na antiguidade as prostitutas foram veiculadas a divindades e, na Grécia, eram vistas como a encarnação de Afrodite, sendo respeitadas por todos. Para a antiga civilização grega, o ato de se prostituir era visto como uma prática comum a qualquer outra que visava obtenção de rendimento (Cecarelli, 2008 apud Santos; Carvalho; Matoso; Vale; Costa &  Ramos).

A história aponta fatos acerca da prostituição em bordéis públicos, pequenos bordéis privados e também casas de tolerância, os banhos públicos, mas também havia a prostituição nas ruas. Em tese, o acesso aos prostíbulos públicos era proibido para homens casados e padres, mas eles encontravam meios de burlar a legislação. A liberdade sexual só era tolerada para os homens. Essa liberdade masculina não sobreviveu à "crise do Renascimento". Houve uma progressiva rejeição da prostituição, que revelava nas comunidades urbanas a precariedade da condição feminina. Autoridades municipais, com o apoio da igreja, passaram a coibir a prostituição que, a partir de então, era considerada como um flagelo social que gerava problemas e que também passa a ser fato de punições divinas. Um após outro, os bordéis públicos foram desaparecendo, mas a prostituição não desapareceu juntamente com eles. A prostituição acabou por se tornar mais cara, e também perigosa e com um ar de ‘coisas’ vergonhosas.  Na Grécia antiga entre os homens havia aceitabilidade das relações homo-eróticas e incentivo à virilidade. Na idade média, a prostituição se institucionalizou como forma de controle do comportamento dos solteiros em relação a orgias e comportamentos inadequados ao padrão (Matthews-Grieco, 2005 apud Silva Junior, 2012). No século xx a dimensionalidade do corpo passa por influencias da moda, esporte, exploração e comércio com imagens que dava um “novo” aspecto de foco genitalizado da sexualidade. De pecado passa a enfermidade até a última edição do Código Internacional de Doenças que, em 1973, que deixa de ser classificada como tal. A noção de pecado, em uma analise, nunca deixou de fazer parte do caldo cultural humano nas sociedades religiosas, mesmo com os recentes escândalos noticiados, ainda vista como antinatural (Almeida, 2010 apud Silva Junior, 2012).

A sexualidade humana sempre teve um aspecto misterioso, curioso, de atenção, de vigilância e de repressão. Estranhamente, para as meninas a repressão é o recato e, para os meninos, a repressão é o incentivo. Se o incentivo de um lado não encontra o incentivo de outro, sugere a facilidade de formar pares iguais que se associam com facilidade, pois parece criar certa inabilidade com o sexo oposto tão recatado e distante ou inversamente ameaçador. Assim, sexualidade sempre foi um aspecto natural, porém delicado. Abordando a sexualidade no seu auge de profissional do sexo, este se torna mais interessante e complexo para uma tentativa de compreensão do ponto de vista da psicologia.

Na visão de Jimenez (2008 apud Silva Junior, 2012) a vida sexual remunerada é chamada de michê e tem dois sentidos, sendo um que pode ser adotado por homens, mulheres e também travestis. Já, a outra forma se refere ao gênero masculino, o garoto, que se prostitui de forma viril em geral e que não abdica de sua masculinidade. Michê ou garoto de programa se referem ao termo que designa o homem ou rapaz que assume relação sexual com objetivo de troca por dinheiro, onde seu corpo em performance de virilidade não tem reconhecimento legal de trabalho. Também encontra outros termos para o mesmo assunto como Boy de programa, go-go boy, capetinhas de plantão, massagistas sexuais, etc. Historicamente, se tem registo de que a vida de garoto de programa é apontada dede o século III a.C., mudando desde servidores de divindades, a tolerância social, até profissionais do sexo no Código Brasileiro de Ocupação. (Silva Junior, 2012).

Do ponto de vista psicológico, sugere que o fato de ser garoto de programa e ter algum benefício financeiro, minimiza o rótulo de gay, embora mesmo assim não relatem suas atividades abertamente. Garotos de programa podem ter clientela variada, desde homossexuais, travestis e mulheres. Seu trabalho tende ocorrer em saunas gays, ruas, praças, praias e bares segundo convenções locais e, na atualidade, via internet como oferta de serviços em sites e salas de bate papo específicos, grupos no whatssap e thinder e demais aplicativos. Há um comércio de fornecedores e recebedores de vivências de prazer, seja ela real ou compensatória. Segundo Simões (2008 apud Silva Junior, 2012), as situações da experiência prazerosa envolve fantasia, desejo, sedução, fetiches, performance entre outros.

 Um aspecto a ser pensado é a heteronormatividade segundo a realidade biológica e social. Esta impõe um único modelo não só de se comportar, mas de se relacionar e de viver sua sexualidade, que muitas vezes ira forjar casamentos em ideias monogâmicos, fidelidade conjugal e família constituída de filhos que, por extremo do outro lado, podem levar a margem da prostituição seja de quem serve ou de quem usufrui (Darde, 2008 apud Silva Junior, 2012). No entanto, a construção do masculino e da identidade masculina aponta que garotos de programa vivem em um limite, um território fronteiriço, entre masculinidade idealizada e o universo homossexual que pode ser hostilizado, onde seus clientes em maioria são gays. Aceitar sua homossexualidade pode ser um problema e por isso seria o dinheiro um meio de minimizar tal conflito? A sociedade ainda tem resquícios da moral da Idade Médica baseada nas teorias psiquiátrica, biológica, da moral religiosa e das ciências sociais (Foucault, 1988 apud Silva Junior, 2012). Parece justo a realidade de discussão sobre o tema entre os garotos de programa em abordar sexualidade, pois esta vai para além do gênero. Também é sugerido nesta pesquisa que abordar a sexualidade dos garotos de programa é conhecer como ela é vivenciada e não nos dispositivos que a normatizam desejos e práticas da sexualidade.

Como comentam Ávila e Gouveia (1996 apud Silva Junior, 2012), viver sexualidade é um fato que também ocorre no corpo; e é no corpo, pelo corpo e com o corpo que a prostituição masculina do garoto de programa se realiza. Este corpo interage com o grupo, lhe é atribuído um significado, papéis impostos e esperados por este grupo, família e pela sociedade.

Para DessuntiI; SoubhiaI; Alves; Rossi & Silva (2008) a realidade da homossexualidade pode ser vivida de diferentes formas com base no padrão de conduta e/ou identidade sexual, sendo:

HSH: (Homens que fazem sexo com homens), sigla utilizada principalmente pelos profissionais da saúde para se referirem a homens que mantém relações sexuais com outros homens, independente destes terem identidade sexual homossexual.

Homossexuais: os que têm orientação sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo.

Gays: são indivíduos que se relacionam afetiva e sexualmente com pessoas do mesmo sexo, assumindo estilo de vida de acordo com sua preferência.

Bissexuais: indivíduos que se relacionam afetiva e sexualmente com pessoas de qualquer sexo, assumindo abertamente ou não essa sua conduta sexual.

Lésbicas: refere-se às homossexuais femininas.

Transgêneros: engloba tanto travestis quanto transexuais. Fisiologicamente é um homem, mas se relaciona com o mundo como mulher.

Transexuais: são pessoas que não aceitam o sexo que ostentam anatomicamente. Sendo o fato psicológico predominante na transexualidade, o indivíduo identifica-se com o sexo oposto, embora dotado de genitália externa e interna de um único sexo.

Drag queen, expressão que se refere a atores transformistas (homossexuais ou não), que no seu cotidiano andam vestidos de homem, exercendo profissões diversas, não afeitas ao transformismo durante o dia.

Atualmente no Brasil, a prostituição quando praticada por adultos é considerada legal e não existem leis ou sansões que a proíba, porém, é criminosa quando ferir os valores resguardados ao pudor e, também é considerado delito a prática feita por menores de 18 anos, o incentivo à prostituição e a criação de casa de venda de sexo. A prostituição masculina inicia seu anúncio à sociedade no início dos anos 80 ocorrendo em ambientes privados (sanitários) que reafirmou uma posição marginal, estigmatizada e de caráter clandestino. Assim, o tema prostituição viril, segundo Perlongue (1987, apud Santos; Carvalho; Matoso; Vale; Costa & Ramos, 2013), destaca o entendimento da revelação do protagonismo masculino no comércio sexual (denominados michês) sendo referido em dois sentidos: um ao ato de se prostituir: fazer michê/michetagem é a expressão de quem se prostitui; e o segundo sentido refere-se aos cultores da prostituição: os varões em geralmente jovens que se prostituem sem abdicar dos estereótipos de gestos e discurso da masculinidade em sua apresentação perante o cliente.

O michê é visto como padrão “Homem de verdade” em geral e é o que movimenta a profissão. Assim há a busca por um modelo absolutamente discreto, másculo e o mais próximo do heterossexual e que movimenta a esfera do erótico (Miskolc & Pelúcido, 2008 apud Santos; Carvalho; Matoso; Vale; Costa & Ramos, 2013). A masculinidade é representada por um corpo definido, em maioria das vezes de maneira hiperbólica e é a “mercadoria” do fetiche, fato em que o “michê-macho” faz questão de deixar sempre visível e constrói deste modo uma vitrine pessoal. Desta forma, o michê também é identificado como “bofe” ou “macho”, é o prostituto que não “deixa” sua aparência masculina, isto é, não abre mão de suas formas dos protótipos masculinos formalmente elucidado e valorizado pela sociedade (Perlongher, 1987 apud Santos; Carvalho; Matoso; Vale; Costa & Ramos, 2013). São homens que se apresentam de maneira máscula e muitas vezes com corpos estruturais.

Em outra concepção deste segmento, o michê-gay ou também chamado como acompanhante de luxo ou “scort boy”, é o que possui boa aparência, tem um corpo bonito, às vezes explora mais o seu parceiro em jogos sexuais sem necessariamente transar ou transa o menos possível (Perlongher, 1987 apud Op. Cit). Na maioria dos casos, recebe solicitação para festas sociais ou mesmo reuniões de família. Esse tipo de michê é marcado pelo requinte, a beleza exuberante e a inteligência, além de se aproximar muito ao modelo heterossexual e dificilmente é encontrado na rua. Por conta de seu “status”, opta por classificados na internet, agências de acompanhantes ou casas de massagem, ou também, agências de modelo com um trabalho chamado de “book azul” para os homens e “book rosa” para as mulheres como apresentado recentemente no seriado “Verdades secretas” da Rede Globo de televisão noBrasil exibido em 2015.

Pode-se destacar que há uma sexualidade reinventada a cada programa, a cada cliente. Há, também, alguns michês que são homossexuais assumidos, outros heterossexuais que fazem programas com homens - HSH (Neto, 2009 apud Op. Cit.), com uma clientela masculina, heterossexual, casados e que possui desejo homossexual latente, sem compromisso afetivo ou de vínculo. Também há mulheres que buscam estes serviços, da mesma forma que os homens, mas pelo que parece, em uma proporção reduzida. Não se pode deixar de pontuar que há a busca deste serviço por um casal heterossexual e homossexual com vínculos estabelecidos e que buscam um terceiro na relação momentânea como aspecto voyerista e/ou exibicionista. Esta situação pontua uma realidade financeira que em algum momento pode mudar ao iniciar um trabalho formal.

Uma realidade que se pode destacar em outro olhar sobre o tema e que é um problema para uma parcela dos garotos de programa é o uso de drogas, seja lícita como medicamento e álcool ou ilícita como as drogas psicoativas em geral. Talvez, para alguns seja vivido como uma válvula de escape ou uma fuga da realidade, ou uma calma passageira referente a algum aspecto angustiante. Para outros, esta realidade pode se tornar uma condição para um programa e que acaba por desenvolver a dependência. Na atualidade há a banalização do uso das drogas, tanto na vida em geral como no cotidiano dos garotos de programa e de seus clientes. A sexualidade passa a ser condicionada a esta realidade e que certamente só será um problema quando comprometimentos maiores surgirem.

É bem verdade que alguns michês se identificando ou se auto-determinam como heterossexuais pelo fato de somar ponto frente à clientela, em grande parte, procuram rapazes que “não sejam” ou não tenham características homossexuais. Perlongher (1987 apud Silva, 2015) destaca que em certo número de casos, os rapazes que se prostituem como michês não são ou não se consideram homossexuais. Esta recusa à homossexualidade vai de encontro à demanda dos clientes, que preferem rapazes heterossexuais dispostos a ter uma experiência homossexual. Da mesma forma, parece se proteger do estigma social que atinge diretamente sua personalidade ou intimidade afetiva.

Considerações finais

Como a pesquisa está em andamento, o levantamento do perfil dos garotos de programa do Rio de Janeiro/Brasil em relação à vida e sexualidade está em coleta de dados em sites, casas noturnas e contatos com pessoas. Embora todo sigilo seja garantido, tem-se observado uma dificuldade em ter o aceite dos garotos para o relato de sua vida para este estudo acadêmico sobre o tema. Alguma ameaça afetiva parece pairar no ar sobre sexualidade, por ser um grupo de pesquisa de psicologia e não um grupo de mídia sensacionalista. Este fato proporciona um dado de reflexão, pois sugere certo receio/angústia de se descobrir algo que se deve manter em segredo, no mais íntimo de cada um. Como comentado inicialmente, abordar a sexualidade é mais difícil que ‘fazer um programa’. Contudo, o estudo pode contribuir com o entendimento dos aspectos humanos desta realidade, valorizando a condição da informação com respaldo na dignidade humana frente a temas de complexidade ligada à saúde sexual e psicológica. Traçar estratégia para possibilitar auxílio desde que desejados por estes garotos. Espera-se que os garotos possibilitem informações importantes do seu estilo de vida assim como informar dados à pesquisa que só se obtém em campo de estudo.

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Revista Integración Académica en Psicología, Volumen 10, número 28, enero - marzo 2022, publicación cuatrimestral editada por la Asociación Latinoamericana para la Formación y Enseñanza de la Psicología, A.C., calle Instituto de Higiene No. 56. Col. Popotla, Delegación Miguel Hidalgo. C.P. 11400. Tel. 5341‐8012, www.integracion-academica.org , info@integracion-academica.org . Editor responsable: Manuel Calviño. Reserva de derechos al uso exclusivo No. 04‐2013‐012510121800‐203 otorgado por el Instituto Nacional del Derecho de Autor. ISSN: 2007-5588. Responsable de la actualización de este número, creamos.mx, Javier Armas. Sucre 168‐2, Col. Moderna. Delegación Benito Juárez. C.P. 03510. Fecha de última modificación: 26 de febrero de 2014. Las opiniones expresadas por los autores no necesariamente reflejan la postura del editor de la publicación. Queda prohibida la reproducción total o parcial de los contenidos e imágenes de la publicación sin previa autorización de la Asociación Latinoamericana para la Formación y Enseñanza de la Psicología, A.C.