A AUTOMUTILAÇÃO NA ADOLESCÊNCIA Descargar este archivo (08 Automutilacion CKuba HSousa LReis LRocha.pdf)

Célia Kuba
Heloísa Carvalho De Sousa
Luana Reis Metta
Lucileide Da Rocha Martins Silva

Faculdade Estácio do Rio Grande do Norte –Fatern. Natal, Brasil

Resumen

La automutilación o la autolesión no suicida se define por un comportamiento en el que el individuo causa repetidamente lesiones superficiales en el propio cuerpo. Se refiere a un fenómeno predominante en adolescentes, con el propósito de aliviar el dolor emocional. Por lo tanto, el presente estudio tuvo como objetivo identificar los factores capaces de motivar el comportamiento de autolesión, aplicando la revisión integradora de la literatura. Después de analizar los textos, seis artículos que describen la automutilación aparecieron en tres categorías: "factores intrínsecos que predisponen a la práctica de la automutilación", "elementos externos capaces de influir en el comportamiento auto agresivo" y "comorbilidades relacionadas con la automutilación". Entre las motivaciones para la automutilación estaban: la regulación emocional, internet como una posible influencia y el predominio del trastorno límite de la personalidad. En vista de lo anterior, se observó la urgencia de más estudios alusivos al fenómeno, especialmente a nivel nacional, para instruir a profesionales y familias en la recepción de estos adolescentes.

Palabras clave: automutilación. La automutilación en los jóvenes. La automutilación en la adolescencia. Autolesión no suicida.

Abstract

Self-mutilation or non-suicidal self-harm is defined by a behavior in which the individual repeatedly causes superficial lesions in the body itself. It refers to a predominant phenomenon in adolescents, with the purpose of alleviating emotional pain. Therefore, the present study aimed to identify the factors capable of motivating the self-harm behavior, applying the integrative literature review. After analyzing the texts, six articles describing Self-mutilation appeared in three categories: "intrinsic factors predisposing to the practice of self-mutilation", "external elements capable of influencing self-injurious behavior" and "comorbidities related to self-mutilation". Among the motivations for self-mutilation were: emotional regulation, the internet as a possible influence, and the predominance of borderline personality disorder. In view of the above, it was observed the urgency of more studies allusive to the phenomenon, especially at the national level, in order to instruct professionals and families in the reception of these adolescents.

Keywords: Self-mutilation. Self-mutilation in young people. Self-mutilation in adolescence. Non-suicidal self-harm.

Introdução

O presente artigo abordará assuntos relacionados à compreensão do processo de Automutilação na Adolescência. Tal evento tornou-se um assunto relevante na atualidade, dado o crescente número de novos casos nas últimas décadas. Nos últimos anos, ocorreu um aumento expressivo de adolescentes em buscam de ajuda nos serviços de saúde decorrentes de comportamento automutilador. Esses sujeitos são encaminhados por escolas, famílias, conselhos tutelares, ou até mesmo por iniciativa própria (De Paula, 2018).

O advento da vida moderna proporcionou novas tecnologias, dentre as quais o uso da internet, causando mudanças significativas na forma como as pessoas vivem e se comportam diante das mais diversas situações. Entretanto, trouxe consigo grandes mazelas à sociedade. A internet pode ser utilizada tanto para tratar questões de grande relevância social, quanto para esconder criminosos mal intencionados que rastreiam crianças e adolescentes incapazes de perceber os perigos existentes nessa ferramenta, no intuito de saciar suas curiosidades e impulsividades. (Eisenstein & Estefenon, 2011).

Neste contexto, observa-se adolescentes tentando sobreviver a tantas mudanças, à procura do seu lugar em uma sociedade repleta de cobranças e imposições. À vista disso, percebe-se o comportamento automutilador do adolescente como uma tentativa de aquisição de alívio e conforto para uma dor maior. De Meneses, Macedo e Viana (2014) relatam que: “A dor que se sente ao se automutilar serve, em diversos casos, para regular outra dor, causada por uma intensa emoção negativa” (p.278).

Assim, a presente pesquisa visa compreender os fatores envolvidos na prática da automutilação em adolescentes.

Um melhor entendimento a respeito dos temas propostos nesta pesquisa, demandará um breve percurso pelo conhecimento teórico que fundamentou esses estudos. Apresenta-se aqui uma explanação de alguns autores que abordam o assunto. Diante do exposto, abordar-se-á a seguir, de forma mais aprofundada, acerca da Automutilação ou Autolesão não suicida, termo descrito na versão atualizada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, 2014).

1.1 Automutilação

A Automutilação tem adquirido posição de crescente evidência no campo científico nas últimas décadas. De Paula (2018) aponta que: “Há uma enorme necessidade de pesquisas sobre o assunto, para uma compreensão mais abrangente deste fenômeno na atualidade e no Brasil, e também uma troca de experiências entre os profissionais da saúde mental, para que haja uma reflexão crítica” (p.187).

Borges (2012), relata que os inúmeros termos usados para conceituar o fenômeno, prejudicam sua compreensão, o que poderá interferir nas avaliações e intervenções. Atualmente os conceitos mais utilizados, definem a automutilação ou autolesão não suicida como qualquer ato intencional e repetitivo de agressão ao próprio corpo, que exclua intenção consciente de suicídio e que não seja aceito dentro de sua própria cultura e nem para exibição (Favazza, 1998; Claes, 2007; Nixon, 2008; citado por Giusti, 2013). Esses atos incluem cortes superficiais, queimaduras, mordidas, bater partes do corpo contra a parede ou objetos, e manipular ferimentos até provocar sangramento. (Briere, 1998; Favazza, 1989; Klonsky, 2008; Lloyd, 2007; citado por Giusti, 2013).

O DSM-5 aponta a automutilação no seu capítulo de Condições para Estudos Posteriores. Identificada dentro da Autolesão não Suicida, que tem como características diagnósticas:

O comportamento repetido do próprio indivíduo de infligir lesões superficiais, embora dolorosa, à superfície do seu corpo. Em geral, o propósito é reduzir as emoções negativas, como tensão, ansiedade e autocensura, e/ou resolver uma dificuldade interpessoal. Em alguns casos a lesão é concebida como uma autopunição merecida (DSM-5, p.804).

Consoante ao DSM-5, os indivíduos relatam sensação de alívio, podendo estar associado à urgência e fissura, quando ocorre com frequência. Este manual aponta duas teorias psicopatológicas sobre o comportamento autolesivo não suicida: a primeira embasada na teoria da aprendizagem, na qual o comportamento é mantido por reforços positivo e negativo. Na segunda, esse comportamento, pode ser visto pelo indivíduo, como uma forma de se autopunir, como forma de compensar atos que causaram sofrimentos ou danos a outras pessoas.

A automutilação encontra-se presente em diagnósticos como: Transtorno da Personalidade Borderline, pacientes psicóticos, intoxicação ou abstinências de substâncias, Transtornos Neurocognitivos, em alguns casos, no TOC, podendo ocorrer na Tricotilomania, Transtorno de Escoriação e no Transtorno do Masoquismo Sexual (First, 2015).

Diante dos diversos conceitos, o tema se torna ainda mais complexo e cada vez mais difícil de ser compreendido no seu real sentido.Entretanto, se faz necessária uma busca cada vez mais intensa de conhecimentos, no sentido de um melhor entendimento, sem deixar margem para entendimentos errôneos que possam dificultar a abordagem do assunto, gerando com isso, um tabu diante da sociedade.

Uma das possíveis razões para o aumento da incidência do comportamento automutilador, referida por Da Silva e Barbosa (2017), estaria atrelada ao fato deste assunto ser considerado um tabu pela maioria da população. Agrega-se a esse fato, a existência da ilusão de que falar sobre o tema potencializa a ocorrência do comportamento. Há, portanto, necessidade extrema em se debater o tema, de maneira adequada e fundamentada.

Indivíduos automutiladores, segundo Favazza (1998), citado por Giusti (2013), demandam grande parte do tempo planejando formas de se automutilarem, aumentam a frequência e a intensidade do ato, incorrendo ao risco de desfiguração física e descontrole do comportamento. Selecionam áreas do corpo de maior acesso como braços, pernas e peito e áreas frontais do corpo, e utilizam objetos perfuro cortantes como estiletes, facas, lâminas de barbear, compassos e agulhas (DSM-5, 2014).

Em face da divergência que envolve a definição da automutilação, soma-se o período do desenvolvimento humano no qual tal fenômeno prevalece, isto é, a adolescência, caracterizada também como uma fase de difícil definição e enquadramento etário.

1.2 Adolescência, Automutilação e a Internet

A adolescência, conforme mencionado anteriormente, envolve várias controvérsias, tornando-se uma fase de difícil definição e enquadramento etário.

Eisenstein (2005), descreve que a Organização Mundial da Saúde estabelece os limites cronológicos da adolescência entre 10 e 19 anos, enquanto a Organização das Nações Unidas os define entre 15 e 24 anos. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente inclui a adolescência na faixa etária de 12 a 18 anos de idade (artigo 2o), e, em casos excepcionais e quando disposto na lei, até os 21 anos de idade (artigos 121 e 142).

No intuito de facilitar o entendimento, abordar-se-á o termo “Adolescência” sob o olhar de Diane E. Papalia (2013), que o define na transição da infância para a idade adulta, traz consigo mudanças físicas, cognitivas e psicossociais, e se estende dos 11 aos 19 ou 20 anos aproximadamente. Decorre da construção social pelo fato de manifestar variadas formas a depender dos contextos sociais, culturais e econômicos onde ocorre. O reconhecimento deste momento crítico, pode alertar pais e professores a compreenderem os comportamentos de tais sujeitos. Portanto, a naturalização desta tumultuosa fase como “normal”, nos expõe ao risco de não percebermos os sinais dos adolescentes que necessitam de ajuda especial.

Para Larson (1997), citado por Papalia (2013), os adolescentes trancam-se nos quartos, a procura de um tempo à sós, na tentativa de fugir das pressões sociais, restabelecer a estabilidade emocional e refletir sobre sua identidade.

Um outro fator, cujo uso inadequado pode provocar danos e influenciar indivíduos na prática da automutilação, diz respeito à internet, embora se apresente como grande fator transformador da sociedade (Da Rosa, 2011). Este último declara que, “Estudiosos acreditam que o aumento de atos de autolesão nos adolescentes se deve em parte às redes sociais, que espalham informações a respeito desse tipo de comportamento e que ensinam a agredir seu corpo quando se sentem sós e deprimidos” (p.135).

O risco se torna eminente, no momento em que o jovem acessa a web e exibe seu comportamento automutilador, usando seu próprio sofrimento para influenciar outros que necessitam dessa forma de alívio momentâneo ao sofrimento.

De Araújo, Remígio e Nascimento (2017) relatam que: “... as redes sociais também passaram a ser utilizadas para o uso negativo, como é o caso do jogo Baleia Azul, que desafia o internauta a realizar uma série de desafios e, ao final, cometer suicídio” (p.2). É impossível deixar de mencionar a existência de pessoas mal-intencionadas que se utilizam da ingenuidade de crianças e adolescentes para se divertirem, de forma algoz.

Adolescentes enfrentam períodos de extrema instabilidade, manifestam estados emocionais marcados por insegurança, angústia, injustiça e incompreensão. Por conseguinte, exibem grandes dificuldades em seus relacionamentos (principalmente os familiares), e, isolam-se cada vez mais do mundo social, em busca de formas virtuais como única possibilidade de socialização (Drummond & Drummond Filho, 1998).

Segundo De Paula (2018), indivíduos nesta fase procuram identificações, seja através das redes sociais, apresentam comportamentos para serem aceitos pelos colegas, desobedecem regras e experimentam situações no intuito de aliviar o sofrimento. Nesta procura, acabam, muitas vezes, expondo-se a situações de risco, ao se defrontarem com grupos que se utilizam de meios perigosos para envolver esses jovens.

Papalia (2013), expõe que, a propensão a comportamentos de risco pode decorrer da combinação da rede cerebral socioemocional (sensível à estímulos sociais e emocionais, como por exemplo a influência dos pares); e da rede de controle cognitivo (controla as respostas a estímulos). Este quadro pode explicar a tendência dos adolescentes a explosões emocionais e a comportamento de risco, como mencionado por (Steinberg, 2007, citado por Estrela, 2018).

Ainda em conformidadecom Da Rosa (2011), a família precisa entender qual é o seu lugar na vida dos adolescentes, não permitindo que a internet assuma o seu papel. No contato virtual os adolescentes passam por muitas vivências e através desse canal, encontram formas de tentar suprir suas necessidades.

Yates (2004) citado por De Menesses, Macedo e Viana (2014), anuncia que “mecanismos negativos na história de vida do sujeito como trauma infantil, abuso sexual ou emocional, falta de comunicação familiar e isolamento, podem constituir motivações para o ato. Sinaliza que a inabilidade em lidar com eventos negativos e a elevada sensibilidade às emoções, conduz o indivíduo, muitas vezes, a falta de controle sobre o comportamento na intenção de dissipar a dor” (p.278).

Articulando com as ideias dos autores citados, nota-se a importância do diálogo estabelecido entre as partes, que possibilite aos pais a percepção de fatores capazes de contribuir para o sofrimento dos filhos, evitando, com isso, motivações para comportamentos inadequados.

Com essa questão em mente sucedeu-se esta revisão de literatura objetivando compreender: “Quais são os fatores que motivam a prática da automutilação em adolescentes?

2- Metodologia

O presente trabalho consiste em uma pesquisa qualitativa, a partir de uma revisão integrativa da literatura nacional, que consiste de um método que possui por finalidade, sintetizar resultados obtidos em pesquisas já realizadas sobre determinado tema, de maneira sistemática e abrangente. Possibilita a inserção de pesquisa quase-experimental e experimental, abarca a literatura teórica e empírica, proporcionando maior entendimento sobre a questão de interesse (Souza, Silva & Carvalho, 2010).

A busca dos estudos ocorreu no período de março a maio de 2019. Utilizou-se a Scielo e a BVS como plataformas de pesquisa. Constituíram-se comocritérios para inclusão na amostra: artigos publicados nos anos de 2000 a 2018, na língua portuguesa, contendo ano de publicação, nome completo dos autores, nome da revista, assim como, tratar da temática da automutilação ou autolesão não suicida em adolescentes.Os critérios eleitos para exclusão envolveram: os artigos de acesso pago, os não disponíveis por completo nos periódicos, os artigos repetidos, e aqueles munidos de diferentes descritores e temas incompatíveis com o objeto de estudo.

Os seguintes descritores foram empregados: “Automutilação”, “Automutilação em jovens”, “Autolesão”, “Automutilação na adolescência” e “Autolesão não suicida”.

O instrumento utilizado consta de um quadro destinado a anotação das informações referentes a cada trabalho selecionado para composição da amostra. Tais informações abarcaram: o título do artigo, o nome dos autores, ano da publicação, título do periódico e temas do artigo.

3- Resultados

A investigação efetuada nas bibliotecas virtuais Scielo e BVS, através da aplicação dos descritores mencionados na Metodologia, identificou um montante total de 87 artigos científicos. Dos quais, após submissão aos critérios de inclusão e exclusão, apenas 6 compuseram essa revisão, pelo fato de envolverem aspectos que respondem à questão norteadora desta revisão.

A análise do material foi elaborada através de leitura crítica e qualitativa que permitiu identificar agrupamentos temáticos de acordo com os objetivos específicos desse trabalho: “Fatores intrínsecos que predispõem à prática da automutilação”, “Elementos externos capazes de influenciar o comportamento autolesivo” e “Comorbidades relacionadas à automutilação”.

Segundo a classificação de periódicos no quadriênio 2013-2016, da coleta Qualis da Plataforma Sucupira realizada em 20/05/19, encontrou-se a seguinte catalogação dos trabalhos: Comportamento autolesivo ao longo do ciclo vital: uma revisão integrativa de literatura. (Classificação B2); Automutilação: Intensidade dolorosa, fatores desencadeantes e gratificantes. (Classificação B1); Funções neuropsicológicas associadas a condutas autolesivas: revisão integrativa de literatura. O Tumblr e sua relação com práticas autodestrutivas: o caráter epidêmico da autolesão. (Classificação B2); Automutilação na adolescência - rasuras na experiência de alteridade. (Classificação B1); Autolesão sem intenção suicida entre adolescentes.

Em outras palavras, quatro dos artigos exibiram classificações que se enquadram em estratos localizados entre média e superior quanto à qualidade das produções, ou melhor, B1 e B2. Em contrapartida, dois trabalhos não apresentaram dados cadastrados no Qualis CAPES.

A contar dos seis trabalhos (publicados em revistas distintas) examinados, evidencia-se uma concentração na produção de 67% nos anos de 2016 e 2017, possivelmente decorrente do crescimento do interesse sobre o fenômeno da automutilação nesse período.

Verificou-se que, apesar de o critério de inclusão envolver artigos publicados nos bancos de dados pesquisados a partir do ano de 2000, o mais antigo remonta ao ano de 2012, o que revelou pouco interesse em estudos ao redor deste fenômeno anteriori a este ano.

Dois trabalhos (Otto & Santos, 2016; e Fortes & Macedo, 2017) relatam narrativas de adolescentes que praticavam os atos através do acesso à internet.

Base

Título

Ano

Revista

Nome do
Autor(s)

Temas encontrados nos artigos

SIELO

Comportamento autolesivo ao longo do ciclo vital: uma revisão integrativa de literatura.

2017

Revista Portuguesa de saúde mental

Alline Conceição Silva, Nadja Cristiane Lapann Botti

  • Elementos que predispõem à prática da automutilação;
  • Fatores que podem influenciar a automutilação;
  • Comorbidades relacionadas à automutilação.

SIELO

Automutilação: intensidade dolorosa, fatores desencadeantes e gratificantes.

2016

Revista Dor

Marcos Girardi Vieira, Marta Helena Rovani Pires, Oscar Cesar Pires

  • Elementos que predispõem à prática da automutilação;
  • Comorbidades relacionadas à automutilação.

SIELO

Funções neuropsicológicas associadas a condutas autolesivas: revisão integrativa de literatura.

2012

Psicologia: reflexão e crítica

Renata Lopes Arcoverde, Lara Sá Leitão de Castro Soares

  • Elementos que predispõem à automutilação.
  • Comorbidades relacionadas à automutilação.

BVS

O Tumblr e sua relação com práticas autodestrutivas: o caráter epidêmico da autolesão.

2016

Psicologia Revista. Revista da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde

Stephanie Cristin Otto, Kátia Alexsandra dos Santos

  • Fatores que podem influenciar a automutilação;

BVS

Automutilação na adolescência - rasuras na experiência de alteridade.

2017

Psicogente

Isabel Fortes, Monica Medeiros Kother Macedo

  • Elementos que predispõem à prática da automutilação;
  • Fatores que podem influenciar a automutilação;

BVS

Autolesão sem intenção suicida entre adolescentes.

2018

Arquivos Brasileiros de Psicologia

Paulo Henrique Nogueira da Fonseca, Aline Conceição Silva, Leandro Martins Consta de Araújo, Nadja Cristiane Lapann Botti

  • Elementos que predispõem à prática da automutilação;
Quadro 1 - Artigos selecionados

4- Discussões

Posteriormente à análise do conteúdo das publicações, observou-se alguns aspectos importantes referentes ao processo de automutilação que serão tratados a seguir. Segundo Fliegel et al. 2009, apud Silva & Botti 2017, p. 71), “o fenômeno da automutilação é característico da adolescência, sendo que, após os 15 anos, ocorre predomínio do sexo feminino”. Vieira, Pires e Pires (2016) concordam com esses autores ao revelarem em seus estudos, que a prevalência desse comportamento ocorre em mulheres jovens, porém, acrescenta que a maioria são portadoras de algum transtorno psiquiátrico. Arcoverde e Soares (2012), e Fonseca, Silva, Araújo e Botti (2018), igualmente, apresentam resultados que convergem com tais autores.

Dois artigos retratam a respeito dos sentimentos vivenciados após o ato. Vieira, et al (2016) informam que os adolescentes quando questionados sobre os sentimentos envolvidos após o ato, relataram: alívio, satisfação, prazer, tristeza, angústia, alegria, culpa, nostalgia, relaxamento, frustração, raiva, compulsão e medo.

Após a descrição desses aspectos, emergiram resultados que respondem aos objetivos desse trabalho, e que foram categorizados de forma a permitir a análise à luz da literatura especializada sobre a questão.

Fatores intrínsecos que predispõem à prática da automutilação

De acordo com Silva e Botti (2017), a prática autolesiva está associada ao enfrentamento de situações desadaptativas e a regulação das emoções. Podendo ser motivada, também, pela dificuldade em expressar emoções, baixa autoestima, baixa habilidade de resolução de problemas, menor crença na auto eficácia e culpabilização.

Vieira, et al (2016), mencionam que as motivações da automutilação podem estar envolvidas com: tristeza, angústia, culpa, ansiedade, raiva, medo de frustração, alívio de tensões e alívio de dor emocional. Tais aspectos corroboram com o estudo de Silva e Botti (2017), ao citarem a regulação das emoções como motivador do comportamento. Assim, as motivações mencionadas para a autolesão como alívio de tensão e o desvio do foco de atenção da dor emocional para a dor física, agiriam como forma de distração a sentimentos de angústia e frustração, causando alívio temporário na maioria dos casos.

Fonseca, et al (2018), também entram em consonância neste aspecto, ao associarem o ato autolesivo aos estados de vulnerabilidades intrapessoais, sociais e dificuldades emocionais. Estes autores expõem que “a autolesão tem sido exercida para aliviar sentimentos negativos, estados cognitivos, dificuldades interpessoais ou para induzir sentimentos positivos, pois essa função reguladora reforça o comportamento”. (Fonseca, et al 2018, p. 254).           

Disfunções no mecanismo de regulação são da mesma forma relatadas por Arcoverde e Soares (2012), assim como os autores anteriormente citados. Outrossim, complementam que fatores neuropsicológicos são associados a condutas autolesivas (como disfunção da regulação emocional e a resolução de problemas). Segundo eles, lembranças estressantes, ansiedade ou depressão podem ativar o mecanismo disfuncional de regulação e gerar o comportamento automutilador. E ainda,associam o comportamento automutilador à impulsividade e ao estresse psicológico.

Vieira, et al (2016),apontam que após o ato da automutilação, a maior parte dos sujeitos relatam alívio, seguidos também de:satisfação, prazer, tristeza, angústia, alegria, culpa, nostalgia, relaxamento, frustração, raiva, compulsão e medo.

Elementos externos capazes de influenciar o comportamento autolesivo

O cyberespaço utilizado por adolescentes, exposto por Otto e Santos (2016), constitui-se em um canal de livre expressão da prática automutiladora e do sofrimento decorrente dessa prática, sem julgamentos. Neste, o sujeito substitui o contato com pessoas conhecidas (como família e amigos), pelo contato virtual com desconhecidos. Indica a preferência à exposição virtual, que favorece a expressão explícita, sem filtros e julgamentos. Valida assim o potencial epidêmico do comportamento.

Semelhantemente, Fortes e Macedo (2017) analisaram algumas narrativas de blogs de adolescentes, nos quais evidenciam o aspecto de isolamento e a ausência de um interlocutor com quem compartilhar a dor. Frente à intensa solidão, os usuários de tal rede social assumiriam a função do outro que inexiste.

Silva e Botti (2017), alertam a extrema importância em se observar o comportamento de automutilação nos mais diversos contextos, inclusive no ambiente virtual, uma vez que, trata-se de uma ferramenta muito utilizada pelos jovens, o que demanda melhor compreensão de uma possível influência desse ambiente no ato de automutilação.

A associação entre experiências traumáticas na infância e automutilação foi identificada por Silva e Botti (2017), que exibem como fatores: problemas psicológicos por parte de um dos pais, separação dos pais, e separação precoce ou prolongada de um dos pais. Observam experiências na infância de negligência emocional, abuso físico ou psicológico, especialmente abuso sexual, entre adolescentes e adultos portadores de comportamento automutilador (Fliege et al., 2009; citado por Silva & botti, 2017). Comportamentos de automutilação são observados em grande parte dos indivíduos que sofrem abuso sexual, superando outras formas de maus tratos. (Noll et al., 2003; citado por Silva & Botti). Além do que, adolescentes vítimas de bullying, também apresentam alto índice de automutilação e pensamentos relacionados ao ato. (Mc Mahona et al., 2010, citado por Silva & Botti).

Esses dados, confirmam os estudos de Giusti (2013), ao referirem que o comportamento autolesivo não suicida pode estar relacionado com: abusos na infância, ser filho de pais separados, conflitos familiares, saber que alguém do seu ciclo familiar ou de amizade se automutila, abuso de substâncias, e experiências de bullying.

Comorbidades relacionadas à automutilação

A prevalência de automutilação em pacientes portadores de transtorno da personalidade borderline, transtornos alimentares, transtornos de estresse pós-traumático, depressão, transtornos de ansiedade e naqueles com histórico de abuso ou trauma, são apontados por Arcoverde e Soares (2012).

O predomínio em portadores de transtorno de personalidade borderline foi referido por Vieira et al (2016), assim como encontra-se presente em depressão maior, transtorno bipolar, distúrbios da personalidade, transtorno do pânico, transtorno misto ansiedade/depressão e transtorno psicótico. Silva e Botti (2017), acrescentam a essa lista o abuso de substâncias e transtornos alimentares.

Já o Manual de Diagnóstico Diferencial do DSM-5, menciona os Transtornos Neurocognitivos, os TOC, a Tricotilomania, o Transtorno de Escoriação e o Transtorno do Masoquismo Sexual, como possíveis comorbidades para autolesão não suicida, visto que, portadores destes transtornos podem adotar este comportamento (First, 2015).

6 – Considerações finais

Frente ao crescimento expressivo da incidência de casos de automutilação na população adolescente, a carência de diálogos a respeito do tema, e subsequente aumento da demanda psicoterapêutica, a presente pesquisa reflete sua relevância, tanto para o profissional da Psicologia, quanto à sociedade de forma geral. Nesse sentido, surge a necessidade de um maior aprofundamento sobre o tema, que possibilite a identificação de fatores protetivos, capazes de proporcionar auxílio efetivo para esses jovens.

Com essa intenção sugere-se que o objetivo geral foi atendido porque efetivamente o trabalho conseguiu expor os fatores envolvidos na Automutilação em Adolescentes a partir da literatura atual. No decorrer dos estudos, verificou-se que vários fatores conduzem os jovens a praticarem a automutilação, ou seja, a maior parte dos autores destacou aspectos relacionados à regulação das emoções. Observa-se a internet como possível fator influenciador de tal comportamento, não descartando a influência de outras razões. Concernente às comorbidades, ocorre o predomínio em portadores de transtorno de personalidade borderline.

Em face à metodologia proposta percebe-se a disponibilidade bastante reduzida de pesquisas que discorram sobre o tema na literatura nacional. Ademais, evidencia-se a ausência de citação de técnicas psicoterápicas cabíveis ao fenômeno. Escassos também são os estudos de casos existentes, possivelmente decorrente do medo à exposição por parte do portador deste comportamento.

Surge a necessidade de um debate adequado e fundamentado do tema, pois o próprio silêncio que recobre o tabu, torna a automutilação ainda mais prejudicial para quem a pratica.

Diante dessa lacuna sugere-se mais estudos acerca da temática que vislumbrem melhor clarificação sobre o fenômeno, pois o fato deste evento envolver um contexto de sofrimento, pode gerar danos indesejáveis na vida dos adolescentes, na medida em que as marcas deixadas, podem estar além das cicatrizes físicas.

Referências

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Revista Integración Académica en Psicología, Volumen 8. Número 22. Enero - Abril 2020, es una publicación cuatrimestral editada por la Asociación Latinoamericana para la Formación y Enseñanza de la Psicología, A.C., calle Instituto de Higiene No. 56. Col. Popotla, Delegación Miguel Hidalgo. C.P. 11400. Tel. 5341‐8012, www.integracion-academica.org, info@integracion-academica.org. Editor responsable: Manuel Calviño. Reserva de derechos al uso exclusivo No. 04‐2013‐012510121800‐203 otorgado por el Instituto Nacional del Derecho de Autor. ISSN: 2007-5588. Responsable de la actualización de este número, creamos.mx, Javier Armas. Sucre 168‐2, Col. Moderna. Delegación Benito Juárez. C.P. 03510. Fecha de última modificación: 18 de enero de 2020. Las opiniones expresadas por los autores no necesariamente reflejan la postura del editor de la publicación. Queda prohibida la reproducción total o parcial de los contenidos e imágenes de la publicación sin previa autorización de la Asociación Latinoamericana para la Formación y Enseñanza de la Psicología, A.C.